quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Minha mãe

Hoje é aniversário da minha mãe, pessoa engraçada é esta Dona Silvia, Silvinha para os íntimos.
Ela nasceu numa família já de gente grande, filha temporão, sempre foi o centro do mimo de todos. Carioca da gema, não aceitava a proibição para usar biquini nos anos 60 e usava biquini por baixo do maiô comportado que a mãe a via saindo de casa, mas chegando na praia, tirava o recato e usava o biquini mesmo, que na época era considerado uma ousadia nas praias cariocas.
Foi criança durante a II guerra, segundo ela, se lembra do racionamento de comida, por isso mantém dois freezers cheios de comida apesar de morarem só 2 pessoas no apartamento.
Veio de uma família de boêmios, o irmão mais velho era fundador do bola preta, carnavalesco carioca que só se vestia de branco, frequentador das noitadas mais animadas da cidade maravilhosa. Seu outro irmão, outro boêmio, onde a noite só acabava pela manhã e a irmã, uma dona-de-casa, casada e tratada como madame.
Queria tocar violão, época da bossa nova e jovem guarda, teve como professor o Edu Lobo, na época um zé ninguém, que não ensinou nada a ela, pois ele tocava tão bem que as aulas se resumiam a recitais dele.
Estudou no Instituto de Educação, para ser professora, e assim foi, por muitos anos, em escolas públicas dos subúrbios cariocas, mas resolveu estudar para concurso público, e se empenhou tanto que passou em primeiro lugar na colocação nacional, e trabalhou por anos no BNH, até se aposentar precocemente para cuidar das filhas.
Namoradeira e despachada demais para a época, resolveu casar só aos 30 anos, pois já era considerada titia, aliás já tinha sobrinhos da mesma idade dela.
Casou com meu pai, um primo de uma amiga que quando conheceu pensou ser a pessoa mais chata do mundo, mas o amor deve ser cego mesmo…
Diz que é vascaína, mas torce para o Flamengo, na copa do mundo de 94, achou que ficar em casa dava azar para o Brasil e ia torcer na rua Santa Clara, num boteco com tv, era mais animado, ia sozinha, sem cerimônia.
Mudamos para São Paulo, mas ela, carioca nata, jamais se acostumou, continuava usando as saias mais curtas e shorts que tinha, até que um dia um doido agarrou suas pernas no meio da rua, teve de sair foragida, resgatada por um taxi. Eu achava que ela era mulata até então, pois nunca tinha a visto branca, como gosta de uma praia.
As dermatologistas a chamam de a anti-ciência, nunca usou filtro solar, nunca tomou sol moderado, e tem uma pele correspondete a idade, nada envelhecida, sempre jovial, deve ser pelo astral.
Gulosa, ô família para gostar de comer, tudo culpa de minha mãe que odeia cozinhar, mas prepara os melhores e mais complicados pratos da gastronomia nacional. Como a veia boêmia ficou na família entranhada, adora uma jogatina e uma cuba libre.
Uma vez na feira, um moleque tentou roubá-la, ela não teve dúvida e agarrou o trombadinha e deu-lhe uma rasteira, pisando em cima dele ao som dos urros da galera da feira. Virou ícone: “a mulher da rasteira”.
Ri de si mesmo como poucas pessoas que conheço, sabe se divertir e dar uma palavra boa para quem está por perto, tem um coração muito grande, mas não pise nos seus calos nem nos das filhas dela, pois vira uma leoa para defender os que ama.
É a maior perua que conheço, usa 385 pulseiras, e às vezes nem consegue dobrar o braço, usa um anel em cada dedo, mas não qualquer anel, anéis de no mínimo 2 centímetros de diâmetro, tem 1,50m mas sempre pareceu ser alta, pois usava salto 15 até para fazer caminhada.
Lembro de um dia em que fizemos excurssão pelo centro do Rio para ela nos mostrar a igreja que havia casado, entramos numa igreja sinistra, feia, escura… e ela contando “foi aqui que casei, o Collor também casou aqui, igreja fina, sabe?”
Mas na verdade saimos de lá e ela nos confessou que não tinha casado lá, que na verdade nem lembrava onde ficava a igreja, mas tudo sem perder a pose.
Já perdeu a saia no shopping e dignamente ficou de calcinha em plena escada rolante, já ficou enrroscada com um moço no ônibus que a chamava de sereia, ouviu buzina na rua crente que abafava e ouviu os berros de um coro: - Perua!
Mas sempre rindo, nos conta seu dia-a-dia, inclusive quando alguém lhe conta uma tragédia em pleno elevador e ela cai na gargalhada até mesmo diante do orador, vê o lado bom das coisas sempre.
E vê sempre acima de tudo o lado bom de ser mãe, adora a casa cheia, queria ter tido cinco filhas, mas se contenta com duas e sem muito esforço sempre foi a mãe mais querida do mundo.
Parabéns mãe!!!

14 comentários:

Paula Nigro disse...

Que super mãe!
Parebéns para ela. Muitos anos de vida.
Beijo,
Paula

Ana disse...

Re
lindo, lindo texto!
Parabéns pra sua mamãe!
(vc esqueceu de contar que ela sempre rendia boas risadas nos nossos almoços, cada vez que viamos uma coisa dourada e dizia que era a cara dela! :)

MH disse...

Sua mãe deve ser uma figura...
imagina, entrar numa igreja e falar que tinha casado ali, o Collor também, pra só dpeois confessar que não fazia idéia de onde era a igreja real...

Parabéns pra ela!

Re disse...

Paula, obrigada bjs

Ana, é verdade, sempre riamos quando eu achava algo a cara dela.... e era sempre algo bem perua.... bjs Re

MH,
Figura mesmo... obrigada
bjs
Re

Renata disse...

Nossa, que mamãe da pá virada! rs
Adorei ela e o post.
Dê a ela os parabéns de seus leitores.

Bjo.

Nana disse...

Que figura, deu vontade de conhecer! Mas explica direito: perdeu a saia no shopping? Como?!

Re disse...

Renata, obrigada, parabéns dado.... bjs

Nana, a saia perdida rendeu até um post: http://passeidostrinta.blogspot.com/2006/07/bem-basica.html
depois me fala se não é maluquinha? hahahaah bjs

heitor disse...

que texto lindo e que histórias sensacionais, parecidas com as que você fala de você mesma..

Suely disse...

Oi,Re,

Sua mamis é uma figuraça, ainda acho que ela deveria escrever um livro, ou você escrever falando dela..
Meu pai se chama Silvio, e são cheios de cacuetes né? rs..

Parabéns dona Silvia!!

Bjs,

Nana disse...

Viii a história da saia! hihihihi

Andorinha... disse...

Rêee, que super mãe, menina!!!
Parabéns atrasado pra ela, viu! E com uma super mãe destas, vc só pode ser uma super pessoa! bjs

Andorinha... disse...

e aí, vamos:? hehe bj

Cláudia disse...

Parabéns pra sua mãe, Re!
Não to dizendo, esse pessoal que nasce dia 9 de agosto é tudo gente boa, fala a verdade! Não perde o fair play nem nas situações mais complicadas.
beijo

Re disse...

Heitor, filha de peixe, peixinha é.... bjs

Su, Estes Silvios são fogo.... bjs

Nana, viu? é uma história típica de Dona Silvinha.... bjs

Andorinha, se eu sou uma super pessoa eu ainda não sei, mas ela bem que tentou.... bjs

Clau, pois é.... no mesmo dia.... 2 mães - leoninas da "pá virada" bjs Re