quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Aquele estranho

Ele estava ali, de costas, com suspensório e camisa quadriculada, fui olhando mais atenta com o meu coração aprertando, calça jeans larga virada na barra e uma papete (- ops, papete não, sandália masculina - ele diria). Tive medo de ver de frente, mas o cabelo era farto e grisalho, nariz grande e sobrancelhas desgrenhadas, bagunçadas e grandes. Olhei de novo e vi um cigarro na mão e uma barriga, ah! Uma barriga bem grande. E em segundos me vi ali, na rua chorando.
Seria estranho eu pedir para este estranho me abraçar? Seria muito estranho eu cheirá-lo e suspirar ao lado dele para matar a saudade? Seria muito se eu lhe pedisse para sorrir daquele jeito moleque de menino fazendo arte?
Continuei andando e chorando por uma saudade acumulada. E nesse choro já inevitável de ser escondido pelo meio da rua, andei e imaginei quanto tempo que não ouço sua voz. Não me lembro muito dela. Mas queria tanto conversar com você, te contar minha vida. Ouvir você me dizendo que eu era a mais bonita, mais esperta, mais inteligente, com os cachorros de rua mais lindos, que tem o melhor petshop do mundo, que era tão perfeita, tão maravilhosa, que fazia a minha vida ser perfeita e maravilhosa de verdade. Fazia eu ter forças para acreditar em mim.
Sabe pai? Quando tudo está um caos e eu acho que nada vai dar certo, ainda lembro do quanto você me fazia acreditar que eu era tão especial que nada podia dar errado. E é verdade. Nada tem dado errado, mas queria muito ouvir isso de você. E hoje só me restou querer abraçar aquele estranho fedendo a cigarro, mas que era tão parecido com você fisicamente que me deu muitas saudades e vontade de agradecer pelo seu carinho de toda vida que me faz muita falta hoje.

3 comentários:

Roberta disse...

Senti suas saudades também...eu a tenho, em relação ao meu irmão.

Flavia Coradini disse...

:)
q bonito.

Cláudia disse...

<3